segunda-feira, 25 de julho de 2011

Entrevista a Daniel Serrão


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[ FONTE ]

A revista Catolicismo (Brasil) estampou em suas páginas uma oportuna entrevista do Prof. Dr. Daniel Serrão, médico e docente aposentado da Faculdade de Medicina do Porto. Desde sua aposentação, em 1998, dedica-se exclusivamente ao ensino de Pós-graduação de Bioética e Ética Médica na Universidade Católica, no Porto e em Lisboa, assim como a proferir conferências em Portugal e noutros países. É membro da Academia das Ciências de Lisboa, da Academia Portuguesa de Medicina e da Academia Pontifícia para a Vida. Preside à Comissão médica de verificação de curas extraordinárias, do Santuário de Fátima. Foi Presidente nacional da Associação dos Médicos Católicos Portugueses. O ilustre entrevistado é internacionalmente conhecido, tanto como cientista como por ser notoriamente católico.

O Prof. Dr. Daniel Serrão concedeu esta entrevista em 2008 ao repórter da revista Catolicismo, Sr. Miguel da Costa Carvalho Vidigal.

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CatolicismoNo ano passado, Portugal tornou o aborto legal, por meio dum referendo popular. No seu entender, faltaram mais pessoas do ambiente católico e de outros sectores da sociedade para defender a posição contra o aborto? O Sr. poderia narrar como se deu essa consulta popular, e quais os frutos da aprovação da lei?

Doutor Daniel Serrão — Perdemos o referendo por uma escassa margem na contagem global dos votos; mas, em muitas mesas de voto e em muitas regiões, ganhámos, e até com maiorias importantes.Tal como no referendo anterior, oito anos antes, nas zonas onde se constituiu um movimento organizado e coerente a favor do "não", ganhámos. Só que, no referendo anterior, o cômputo global foi-nos favorável, igualmente por pequena margem, e muitos pensaram que a guerra estava ganha, quando só tínhamos vencido uma batalha. Quem ganhou, de facto, tanto num como noutro referendo, foi a abstenção: mais da metade dos portugueses não votou. Sendo Portugal um país de grande maioria católica, tenho de concluir que, num momento da maior gravidade, em que estava em causa a Vida humana, os católicos ficaram em casa, atraiçoando a sua Fé. E tenho de concluir que a Igreja institucional, os seus pastores e os seus sacerdotes, não souberam chamar os católicos à responsabilidade de não se absterem. Porque, seguramente, nenhum dos adeptos do "sim" ficou em casa no dia da votação.

A nova lei é a mais laxista da Europa. A mulher grávida decide livremente fazer-se abortar num hospital público, sem encargos, até a 10.ª semana de gravidez; ou numa clínica privada de abortos (duas destas empresas espanholas de matar crianças ao abrigo da lei instalaram-se logo em Portugal) que tenha acordo com o Serviço Nacional de Saúde, o qual paga o aborto por uma tabela convencionada, que obviamente dá lucro à empresa abortista.

Catolicismo Que conselho o Sr. daria, como médico, como católico e como pai de família, a uma jovem, que o procurasse, manifestando a dúvida se praticaria ou não um aborto?

Doutor Daniel Serrão — Daria o conselho que tenho dado muitas vezes: Não assumas a responsabilidade de decidir em nome de uma vida que não é a tua; o que está dentro de ti é uma vida nova, que apela a viver, e tu tens de ouvir esse apelo, que é biológico, antes de ser humano.Nenhum dos motivos pelos quais me dizes que queres abortar vai ficar resolvido com o aborto, e tu vais comprar uma guerra contigo própria, que te vai acompanhar ao longo de toda a tua vida. Não uso argumentos de cariz religioso, porque, quem tenha verdadeira Fé, nunca colocará, a si própria, a possibilidade de se fazer abortar, sejam quais forem as situações da gravidez. Nem mesmo em casos de violação brutal.

CatolicismoQue papel uma santa e médica – como Santa Gianna Beretta Molla, que preferiu ter o filho, apesar da recomendação de ordem terapêutica para abortar – pode representar, como exemplo, para as mulheres nos dias de hoje?

Doutor Daniel Serrão — Representa o apelo às virtudes heróicas, que devem ser sempre apresentadas à juventude, porque ela é sensível à heroicidade e à dedicação absoluta a ideais, que são vividos até às últimas consequências. Infelizmente, à medida que a idade avança, o pragmatismo leva ao enfraquecimento da paixão pelos valores superiores; e os exemplos, como os de Santa Gianna, são menos eficazes.

Catolicismo Em sua experiência médica, que traumas e consequências o aborto pode causar nas mulheres que o praticam?

Doutor Daniel Serrão — O mais grave, conforme a minha experiência, é a persistência, na memória afectiva, de um sentimento de profunda angústia existencial, que torna a vivência comum muito difícil.

Tive um caso grave de suicídio iminente, que só foi controlado com tratamento psiquiátrico especializado, durante quase um ano: Uma jovem de 17 anos, que se fez abortar de uma gravidez resultante de uma relação incestuosa consentida, ficou totalmente inibida de ter vida sexual.
O aborto de toxico-dependentes torna a recuperação da dependência muito mais difícil, parecendo que a jovem quer castigar-se pelo que fez. Mas o mais grave é que persiste a memória da decisão e do acto, muitas vezes com representação durante o sonho ou com alucinações.

Uma das jovens, que obviamente não “viu” o acto de aborto feito sob anestesia, descrevia com profundo sofrimento a morte do seu filho, com os pormenores que lhe apareciam nos sonhos. A sua angústia era tão profunda, que necessitou de tratamento psicológico durante quatro anos.

Na minha experiência, nenhuma mulher se recupera completamente dum acto de aborto. Há uma ferida biológica que muito dificilmente cicatriza.

CatolicismoFala-se muito que a legalização tem como finalidade combater os abortos clandestinos. No seu entender, essa é uma razão real?

Doutor Daniel Serrão — É uma falsa e hipócrita razão. É evidente que, se todos os abortos passarem a ser feitos gratuitamente, à vontade da mulher, sem qualquer condicionalismo, deverão acabar os abortos clandestinos nos hospitais públicos, porque seriam absurdos. Mas não é isto que acontece.

Em Portugal não há números fidedignos, mas os abortistas lamentam o número baixo de abortos hospitalares; e insinuam, eles próprios, que os clandestinos continuam. É claro que continuam, porque muitas mulheres que decidem fazer-se abortar, por este ou aquele motivo, desejam que esse acto lhes seja praticado de forma clandestina, e não numa enfermaria dum hospital, onde toda a gente vai saber que ela está internada para fazer aborto.

CatolicismoNa Esparta pagã, e noutras culturas afastadas do Direito Natural, praticava-se o infanticídio no caso de crianças nascidas com defeitos físicos. No caso de prosseguir a actual ofensiva contra a vida, não é de se recear que cheguemos a esse ponto?

Doutor Daniel Serrão — Sem nenhuma dúvida. Na Holanda o infanticídio é já praticado como uma extensão, tolerada pelos tribunais, da lei actual da eutanásia. De acordo com esta lei, a eutanásia deixou de ser um homicídio despenalizado, e tornou-se uma decisão dos médicos como qualquer outra. O infanticídio, por assimilação da lei, deixou de ser um crime, e passou a ser, igualmente, uma decisão do médico.

CatolicismoMuitas abortistas alegam que a mulher é dona do seu corpo, e portanto caberia a ela a escolha e o direito de abortar. O que a ciência diz a respeito disso?

Doutor Daniel Serrão — Não é preciso a ciência, basta o senso comum. É evidente que a mulher é “dona” do seu corpo, e deve procurar para este, sempre, o seu melhor bem. A cirurgia estética é um bom exemplo dessa espécie de propriedade sobre o corpo. Só que o embrião em desenvolvimento, durante nove meses, é um corpo próprio, que se serve do corpo da mãe para se alimentar e desenvolver, e a partir de 500 gramas de peso já pode dispensar o corpo da mãe. A mãe é dona do seu corpo, mas não é dona do corpo do seu filho ou filha.

Catolicismo Frequentemente, acusa-se a Igreja Católica de ser inimiga do progresso e da ciência.O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, inspirador da revista Catolicismo, sempre sustentou o contrário. Sempre ensinou que a Igreja é a grande benfeitora do autêntico progresso, da cultura e da civilização.Gostaríamos de conhecer sua opinião a tal respeito.

Doutor Daniel Serrão — Tinha Plinio Corrêa de Oliveira — que tive o ensejo de conhecer numa das suas visitas a Portugal — toda a razão. O recente caso das células-tronco, ou estaminais, é uma demonstração eloquente disso. A oposição da Igreja à destruição de embriões, para se obterem estas células, levou investigadores, em todo o mundo, a procurarem fontes alternativas. Essas fontes apareceram pelo trabalho científico, e hoje pode dizer-se que, para se conseguirem resultados terapêuticos, não são necessárias células tiradas de embriões, destruindo-os, já que as encontramos no líquido amniótico e no sangue do cordão umbilical.

CatolicismoDiscute-se, no Supremo Tribunal Federal, o tema da utilização de células-tronco embrionárias em pesquisas médicas. Em caso de aprovação por parte dos magistrados, o Sr. acha que isso trará mesmo algum avanço para o mundo científico brasileiro?

Doutor Daniel Serrão — Como acabo de responder, não há hoje necessidade de usar células-tronco de origem embrionária. No recente livro Cell Therapy, editado pela McGrawHill, e no qual tive a honra de colaborar, estão apresentados os resultados, nos diferentes campos, do uso terapêutico de células somáticas com função estaminal. No interesse dos doentes, os países, que têm condições para fazer investigação com estas células, devem subsidiar os ensaios com as células de adultos, pois com estas podem obter-se, a curto prazo, resultados positivos, particularmente em doenças cardíacas e do sistema nervoso.

Catolicismo Sabe-se que em alguns países essas pesquisas com células-tronco embrionárias já se fazem há algum tempo. Divulga-se algum fruto real dessas pesquisas?

Doutor Daniel Serrão — Não há um único resultado terapêutico em seres humanos com células-tronco de origem em embriões humanos. Os principais problemas – que são o controlo da capacidade de transformação dessas células-tronco embrionárias em células tumorais, e a própria estabilidade do fenótipo de célula-tronco não diferenciada e das células diferenciadas obtidas das células-tronco – não estão resolvidos. E sem estarem resolvidos, não se vislumbra qualquer aplicação em doentes. Pelo contrário, as células-tronco obtidas em estruturas adultas, em particular na medula óssea, há muitos anos dão resultados excelentes em leucemias e linfomas, e nos casos de neoplasias, em que é necessário aplicar terapias que destroem a medula óssea.

Actualmente, é possível “guardar” células-tronco obtidas da criança, logo após nascer, e se for necessário, usá-las anos depois, sem nenhum problema de rejeição imunológica. Se os resultados dos investigadores japoneses e americanos vierem a ser desenvolvidos com sucesso, qualquer célula do nosso organismo adulto poderá ser transformada, por engenharia de genética molecular, em célula com as características da célula-tronco embrionária.

CatolicismoQue mensagem o Sr. gostaria de dar aos leitores de Catolicismo, para incentivá-los na luta contra a prática do aborto?

Doutor Daniel Serrão — A mensagem é só uma: aprender a ter respeito pelo corpo próprio e pelo corpo do outro. Respeito, antes de mais, biológico, pois todo corpo vivo apela a viver, e esse apelo tem de ser escutado e respeitado. A criança, que está a desenvolver-se, apela à mãe para viver, com a linguagem própria do equilíbrio biológico.

Depois, respeito ao nível humano, porque o feto é já da nossa família humana, mesmo que ainda não fale connosco; mas vai falar em breve, e se já falasse, pediria que não fosse morto.

Finalmente, respeito espiritual, porque o ser que se desenvolve no útero da mãe não é uma coisa, mas uma estrutura pessoal, que irá manifestar-se como pessoa espiritual, à medida que o tempo passar.

No acto de abortar, o abortador destrói uma vida biológica, mata um corpo humano pessoal e anula a expressão de um espírito. Espírito que, para nós católicos, é a marca do Criador em nosso corpo, desde a concepção.


Fim.
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 ABC do Aborto:
«A maior dificuldade para uma boa discussão do problema do abortamento em Portugal é a falta de informação verdadeira e isenta e a abundância de informação falsa e tendenciosa. Vou tentar ajudar as pessoas que, de coração limpo e inteligência livre, querem formar um juízo sério e responsável.
 Aborto é o produto de um acto de abortamento que consiste em extrair do útero – ou forçar a expulsão – de um ser humano em desenvolvimento. Quando a expulsão é espontânea diz-se que a mulher teve um aborto ou que abortou; também se diz perdeu o filho (ou o bébé). O acto de abortamento pode resultar de uma decisão da mulher grávida que procura, por sua iniciativa, encontrar quem o pratique – alguns médicos, parteiras e enfermeiras que perderam o respeito pela dignidade da sua profissão; jeitosas ou curiosas irresponsáveis; algumas clínicas certificadas para fazerem actos cirúrgicos e que praticam também, clandestinamente, actos de abortamento. Todos estes intervenientes actuam por dinheiro e não com o objectivo de ajudar a adolescente ou a mulher em situação de desespero. Os preços oscilam, segundo algumas fontes, entre vinte e duzentos contos, consoante a técnica utilizada e o tamanho do bébé que vai ser liquidado. O “produto” de um acto de abortamento é um ser humano em desenvolvimento, extraído depois de ter sido morto, ainda no útero da mãe, ou que morre após ter sido tirado.

Este ser humano em desenvolvimento construiu-se como um ser autónomo, definido por uma estrutura cromossómica diferente da da mãe e da do pai, da qual resulta um corpo próprio e que vai usar o corpo da mãe apenas para se alimentar. O corpo humano mais simples é formado por duas células e está na trompa; chama-se-lhe embrião e vai sempre aumentando o seu corpo, pela divisão das células que o formam, até se aninhar na mucosa do útero; o que demora 6 a 8 dias. Para alguns a partir da nidação o nome do corpo humano muda de embrião para feto; outros só lhe mudam o nome para feto pela 8ª ou 9ª semana. Esta mudança de nome é inteiramente arbitrária e não tem qualquer fundamento científico. O corpo humano, desde a fase em que é formado pelas duas células resultantes da divisão do ovo fecundado, ou zigoto, muda constantemente de aspecto exterior e de forma interior por força do processo de diferenciação. Podem mudar-lhe o nome mas é sempre o mesmo corpo humano em desenvolvimento.

Às 8 semanas, o feto, com cabeça tronco e membros bem desenvolvidos, o coração a trabalhar, o cérebro reactivo a estímulos, intestinos e rins constituídos e funcionantes, flutua no líquido amniótico e executa movimentos intencionais dos membros e do corpo, como o fazem os animais que vivem em meio aquático. É um corpo humano bem vivo. Não há, actualmente, nenhuma dúvida entre os cientistas especializados em biologia humana: no zigoto ou ovo fecundado manifesta-se uma vida humana e o corpo que a transporta modifica-se ao longo do tempo, até à senilidade e à morte. Todas as formas do corpo humano são o suporte biológico e natural da vida humana. Toda a destruição intencional de um corpo humano, seja qual for a sua idade – do zigoto até aos nove meses –, é um crime contra a vida humana. Exactamente igual ao infanticido ou à eutanásia dos velhos e doentes terminais.

Autorizar a mulher grávida, em qualquer fase da gestação, a interromper voluntariamente a gravidez, fazendo com que lhe destruam e extraiam o embrião ou o feto, é legalizar um crime contra a vida humana, é abrir a porta ao infanticídio por motivos sociais, à pedofilia assassina, ao tratamento cruel de idosos e dependentes e à eutanásia ou morte dos doentes terminais.»

          Daniel Serrão

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