Às vezes aparece-nos lixo nas caixas de comentários. Aquele que se segue foi enviado por um anónimo que não gostou de ler este texto. Daí, quis explicar-nos que o problema português do envelhecimento da população é muito mais simples do que pensámos:
« Tanta ignorância que por aqui anda, isto dá dó... Portugal é um país com população envelhecida por uma razão muito simples: porque as gerações anteriores, compostas essencialmente por analfabetos e atrasados mentais, se reproduziram como baratas, aparentemente não cientes do facto de que já existe excesso de população humana neste planeta há um bom par de centenas de anos, »
Dá mesmo dó, não dá?
Comecemos pelo elementar: quando dizemos que um país tem uma população envelhecida, isso é o mesmo que dizer que a população do país não é jovem. Ainda estamos todos bem? Nenhum cérebro explodiu? Continuemos.
Se os indivíduos das gerações anteriores, as tais "baratas" analfabetas, reaccionárias e atrasadas mentais que tiveram a infeliz ideia de contribuir para a perpetuação da maldita espécie humana, tiveram muitos filhos, vamos supor, uma loucura eu sei, que tiveram esses muitos filhos quando eram novos e não em velhos.
Daqui, a única conclusão a retirar é, se a população está actualmente envelhecida, o problema não foi causado pelos ( hoje) velhos que já cumpriram a sua missão ( suicida) quando eram novos. Foi das gerações que se seguiram, as quais, sublinhe-se, por genuíno altruísmo e interesse no bem-estar do planeta, reduziram drasticamente o número de nascimentos.
Atrevo-me mesmo a dizer que se as novas gerações, em toda a sua cultura e literacia, seguissem o exemplo das "baratas" analfabetas, não seríamos uma população envelhecida.
Claro, esta conclusão só faz sentido se assumirmos a ideia parva, absolutamente descabida, de que "população envelhecida" significa, basicamente, uma população sujeita ao fenómeno natural do envelhecimento ( parece ser o caso dos humanos ) e na qual há poucos nascimentos.
Identificado assim o problema, só há duas soluções possíveis para o resolver: ou dizemos às pessoas para deixarem de envelhecer, ou criamos condições e incentivamos o aumento dos nascimentos.
Sugerem alguns que a melhor opção seria a segunda. Que o problema se resolve aumentando o número de nascimentos. Mas como também sabemos, isso é uma estúpida teoria fascista que pretende aniquilar as árvores, os pandas e o planeta no geral.
Na realidade, diz-nos o nosso especialista demográfico, o envelhecimento das populações dá-se pelo "crescimento exponencial":
«...um problema com crescimento exponencial já há bastante tempo evidenciado e exposto pela comunidade científica, mas só agora, FINALMENTE, a começar a ser combatido pelos países civilizados através de medidas tais como a informação ao público e nas escolas, e de controlo de natalidade tais como a contracepção e o aborto VOLUNTÁRIO. »
Pois é. Como toda a gente sabe, as populações com uma forte natalidade são populações bastante envelhecidas. Quantas mais crianças nascem, menos jovens temos. Quem pode negar algo tão evidente?
É por isso que os países civilizados controlam a natalidade, introduzem a contracepção e os abortos, promovem a "coltura" e eliminam o analfabetismo e o atraso mental. Resultado: sai um inverno demográfico para a mesa do canto. O mesmo que dizer, uma população cheia de vigor e juventude...
« Portugal é um caso flagrante deste contexto, não se tratando de um país que tem jovens a menos, mas sim VELHOS A MAIS... »
A tragédia é que esta mesma ideia é defendida por parte da nossa elite. Não é apenas um comentário de um internauta anónimo e imbecil.
Não é por acaso que a eutanásia está na ordem do dia. O problema do excesso de juventude está controlado: o estado já paga para matar as crianças dentro das barrigas das mães. Resta resolver o problema do excesso de velhos. A Solução Final, idealizada pelos génios que sabem quantas pessoas podem e devem existir no planeta, deve estar para breve. Depois de abortadas as crianças e "adormecidos" os velhos, seremos novamente uma população jovem. Faz sentido, sim senhor.
O nosso crânio da demografia reforça que isto da população envelhecida em Portugal é,
«...o resultado de décadas e séculos de reprodução descontrolada, sem planeamento familiar, sem levar em conta o contexto global, sem contracepção e sem aborto, tal como nos (outros) países do terceiro mundo.»
Tal como nos (outros) países do terceiro mundo, porque os países do terceiro mundo, com "reprodução descontrolada", envelhecem. Quem não sabe isso?
Décadas e séculos de malta a ter filhos indiscriminadamente, sem ninguém se lembrar de os matar logo no útero materno, deu no que deu: as gerações sucederam-se, até que nasceram os espertos. Estes, agora olham para trás e percebem a monstruosidade: aquela estúpida e analfabeta gente do passado, mais o raio das suas tendências pecaminosas para a reprodução, não tinha o direito de estragar a Terra e de envelhecer a população do século XXI.
Assim, o sábio anónimo implora-nos:
« Parem o ciclo de estupidez, por favor. Parem a desinformação, por favor. Se não têm nada de cientificamente útil ou lógico para dizer, parem de DESINFORMAR e retirem este site da Internet imediatamente, se faz favor. NÉSCIOS ! »
Sobre o "imediatamente, se faz favor", no imediato decidimos recusar a sugestão. Se depender dos NÉSCIOS ! que escrevem neste blogue o ciclo de estupidez e desinformação aqui produzido continuará. Resta ao anónimo esperar que alguma autoridade científica ou judicial decida retirar o site do ar, pelo crime de contributo para o envelhecimento da população portuguesa. Estimamos as melhoras.
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Quatro filhos e um casamento. A imagem de um crime contra a humanidade. |