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terça-feira, 8 de maio de 2012
Aumenta o número de abortos em mulheres desempregadas
sábado, 5 de maio de 2012
A crise não pode justificar o aborto
Quando em campanha pela Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) livre até às 10 semanas, o argumento mais ouvido era invariavelmente o mesmo: «ninguém faz um aborto porque quer», subentendendo-se que era uma opção limite.
Seguia-se-lhe a afirmação de que a criminalização vitimava sobretudo mulheres desfavorecidas, que punham a vida em risco em redes clandestinas, enquanto “as ricas” iam abortar a Badajoz. Ontem foi divulgado o relatório da DGS que refere que no ano de 2011 se fizeram 20 290 abortos.
Ao longo do dia os resultados foram sendo comentados nos media, e a minha indignação foi crescendo à medida que percebi que se justificava o número de IVG, como uma consequência do desemprego e da crise económica.
Houve mesmo quem alegasse que a culpa era do preço dos contraceptivos. Há 20 290 mulheres que, num ano, engravidaram sem o desejar, e o número cresce. Cinquenta e quatro por cento tem o ensino secundário ou o ensino superior, 44% está entre os 20 e os 29 anos, 50% coabita, ou seja, tem uma vida sexual activa regular, 40% não tem filhos e 51,8% tem um ou dois.
Se para a grande maioria é o primeiro aborto, para 20,4% é o segundo, para 4% o terceiro e 2,3% realizaram outra IVG no mesmo ano. Não me parece admissível desresponsabilizar as pessoas dos seus actos, muito menos quando implicam gerar vida, mas muito menos quando não podem alegar que não sabem que a contracepção existe, e como lhe aceder.
Alegar a crise para o justificar é demagogia, porque em condições difíceis é maior a exigência de redobrar os cuidados para não engravidar. Queria muito acreditar que nunca se aborta de ânimo leve, nem se usa a IVG como contraceptivo, mas temo que se continuarmos a falar dela com tanta ligeireza, acabe por ser tudo isso.
PS – Com 6460 abortos realizados na Clínica dos Arcos, o centro onde em Portugal mais IVG se praticam (a MAC, a segunda, tem 1555), é caso para dizer que já não se vai a Badajoz, porque Badajoz vem a Lisboa.

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sábado, 31 de dezembro de 2011
"Desculpa, filho"
Há cerca de um ano, com os meus 18 anos quase acabados de fazer, engravidei de um rapaz que, apesar de já estar comigo há 2 anos, jamais teria demonstrado vontade ou maturidade para ter algo sério comigo. Mantínhamos uma amizade colorida, onde os sentimentos eram postos de lado.
Acontece que, tal como muitas pessoas pensam, eu não fui excepção à regra e quando o meu período menstrual se atrasou eu não liguei, julgando que fosse um atraso – e o mais irónico é que o meu período sempre fora regular, mas claro, nós achamos sempre que só acontece aos outros.
Apenas no dia 24 de Janeiro tive coragem para fazer um teste de gravidez que, obviamente, anunciou um resultado positivo. Nem sei o que senti nesse momento. É uma sensação horrível, tantas são as interrogações e as dúvidas que nos começam a bombardear (e note-se que eu já estava grávida de 9 semanas, ou seja, estava bastante sensível).
Mas, de facto, era algo do qual eu já deveria estar consciencializada, uma vez que os sintomas eram evidentes – eu simplesmente não queria aceitar!!!
Acabei por contar tudo ao rapaz, tal como aos meus pais, que reagiram de forma muito distinta. A minha mãe apoiou-me incondicionalmente, ao invés do meu pai que sentiu vergonha e não conseguiu dirigir-me palavra durante semanas.
Foram momentos de desespero e dor profunda. Ouvi coisas que jamais esperei ouvir, e os meus choros e revolta eram constantes: “Porquê a mim? Porque é que isto me aconteceu? Eu preciso de apoio, será que ele não consegue ver isso?”
Ainda pior que tudo isto foi o facto de não ter apoio psicológico nem monetário do suposto pai da criança. Na altura, ele era um rapaz com 19 anos, com um emprego que lhe dava um bom salário, e alguém que eu julgava ser responsável e maduro… Tamanha ilusão, ou melhor, tamanha desilusão que eu fui ter!!! Senti-me abandonada, triste, e se não fosse a minha mãe não sei o que seria de mim – de facto, mãe é tudo.
Recorri ao Centro de Saúde no dia seguinte, após confirmar a minha gravidez. No entanto, necessitava de falar com uma psicóloga que de momento se encontrava de férias – e, embora não tivesse a certeza de quanto tempo estava naquele momento (só soube ao certo no dia em que abortei), eu tinha uma noção de que o tempo de gestação já era longo.
Eu não menstruava desde início de Novembro, portanto tinha que arranjar uma outra solução, já que a IVG só é feita legalmente até às 10 semanas. Dia 1 de Fevereiro foi o dia do meu aborto. Um dia que jamais irei esquecer. Inicialmente, o meu único pensamento era: “eu quero livrar-me disto o mais rapidamente possível!!!” Cheguei à clínica e fui rapidamente atendida.
Inicialmente foi feita uma ecografia, que anunciou 10 semanas de gravidez, e de seguida falei com um psicólogo, fiz uma recolha de sangue para averiguar qual o meu tipo sanguíneo e voilá – sala de operações. Preferi fazer uma aspiração com anestesia geral, uma vez que não queria, de forma alguma, ter recordações daquela operação. E, em menos de 5 minutos, adormeci profundamente, acordando 1 hora e pouco mais tarde.
Acordei aliviada, mas meio deslocada, nostálgica. Eu sabia que o meu ”pesadelo” tinha acabado – mal sabia eu que outro, mais tarde, iria começar. Senti dores horríveis nos primeiros dias após a IVG e perdi algum sangue. Porém, correu tudo bem, e após isso a minha menstruação voltou e até à data tem sido regular, sem quaisquer tipo de complicações.
Fisicamente, tudo impecável. O pior mesmo é a parte psicológica… Se inicialmente fiquei bem, hoje em dia, e passado meses – quase um ano, a verdade é que sinto um enorme vazio e penso constantemente em como seria a criança, invadida de culpa. Embora a situação fosse muito complicada, a verdade é que eu tinha o apoio da minha mãe.
E o meu pai, mais cedo ou mais tarde acabaria por aceitar. E o rapaz teria que tomar outra atitude, consciencializar-se e falar com a mãe – esse sempre foi o grande ”medo” dele, já que entre eles existiam alguns dissabores. Ainda assim, tudo acabaria por tomar um rumo, e apesar da sua atitude cobarde, certamente que ele daria um bom pai.
Enfim, tudo suposições que me matam por dentro… Era nova de mais, ingénua de mais – e verdade seja dita, só compreendemos realmente as situações quando passamos por elas.
Desculpa “filho” por não te ter deixado viver. Garanto, de facto, que jamais repetirei um acto destes, pois dói de mais. Mãe é mãe, ainda que o filho nasça ou não.
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